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O novo profissional de comunicação


O jornalismo estará irreconhecível. Estamos passando por mudanças dramáticas causadas pela internet e por redes como o Twitter e o Facebook. Nas comunidades de antigamente só havia o padre e o médico que sabiam ler e, portanto, podiam compartilhar conhecimento. Depois, as pessoas tiveram acesso a livros, jornais, televisão e o conhecimento passou a ser mais bem distribuído. Mas, mesmo assim, os jornalistas, escritores, produtores dos programas de TV eram os mais poderosos. Hoje cada um pode ter seu próprio site, sua própria televisão. A hierarquia morreu.”


O filósofo Jonathan Mann  responde a pergunta “Que tipo de jornalistas serão as crianças de hoje?”. Segundo ele, os jornais estão em perigo. “Acho que a crise é dos jornais, não das notícias. O New York Times, o Times (de Londres), o Libération (de Paris), todos ainda podem existir como sites. O papel não será mais necessário. A TV também não será. Ela está na internet, no celular. A questão está em como as notícias serão distribuídas, é uma crise de distribuição”, opina.


Com o surgimento da mídia social, a vocação colaborativa da web ficou ainda mais clara: não estamos apenas conectando conhecimento, mas pessoas. E nessa nova comunidade surgem adversidades, mas também inovações. 


O poder da rede também torna possível a interação com outros profissionais da informação, permitindo novas formas de relatar notícias. Nos EUA, por exemplo, quatro jornalistas (Elaine Helm, Paul Balcerak, Brianne Pruitt e Angela Dice) fizeram uma cobertura, de forma colaborativa, das chuvas em Washington. Eles não trabalhavam no mesmo local, nem para a mesma empresa. Na verdade, muitos deles nem se conheciam pessoalmente. Eles utilizaram o site colaborativo Publish2 (http://www.publish2.com/). A notícia se propagou no Twitter, já que eles adotaram uma hashtag única. 


Esse é apenas um exemplo. Na internet, o produtor de conteúdo pode ser um comunicador com inúmeras facetas. Steve Outing acredita que o jornalista irá trabalhar numa determinada comunidade. Ou, como prega Seth Godin, Tribo


As empresas jornalísticas irão oferecer aos seus empregados (jornalistas ou blogueiros) ferramentas web 2.0 para que eles atuem em nichos específicos. O jornalista vai se dedicar a um assunto pelo qual seja genuinamente apaixonado, criando comunidades sobre temas com os quais esse público igualmente se identifica.


O repórter pode agrupar essas pessoas e criar conteúdo sobre o tema em que é especialista. Atuando nesse nicho, o jornalista poderá contar com essa comunidade para lhe aconselhar. Sugestões de idéias de pautas, fontes, indicações de conteúdo de outras publicações e até mesmo receber ajuda voluntária desse público (especialistas escrevendo artigos, pessoas enviando vídeos etc.). 


Steve Outing acredita que isso se assemelha à proposta do beatblogging BeatBlogging.org, conceito que ajuda a realizar mais, economizando dinheiro. Une peritos em assuntos específicos e jornalistas para lançar luz sobre temas segmentados, criando uma conversa online que dificilmente seria possível de ser realizada por apenas uma pessoa, melhorando e ampliando a cobertura de assuntos. 


Com isso, se produz conteúdo especial para uma audiência realmente interessada, muitas vezes não atendida em outros meios de comunicação. O que abriria espaço para uma propaganda segmentada. 


Para Outing, com blogs no centro do trabalho jornalístico, o jornalista desenvolverá múltiplas atividades. Será multitarefa, podendo atuar numa variedade de formatos, desde textos simples a vídeos, podcasts ou experimentações multimídia. A notícia recebe atualizações à medida que os eventos progridem. Não apenas texto, mas vídeo ou áudio. E, quando necessário, informações urgentes podem ser enviadas via celular, lista de e-mail, Twitter, redes sociais etc. 


Entretanto, Outing acredita que levará tempo para que a maioria dos jornalistas se adapte a este novo fluxo de trabalho.


Ademais, o modelo de atuação comentado por Outing prescinde o vínculo com empresas de comunicação, o que já acontece atualmente. E essa é apenas uma das propostas que devem surgir para a atuação dos profissionais de comunicação. Enquanto a mudança demora para alguns, outros já investem no novo meio, criando grande capital social mesmo sem possuir experiência anterior com a indústria da informação. O Move That Jukebox, por exemplo, é um dos blogs de música mais conceituados do Brasil. Quando foi criado, muitos dos seus integrantes eram menores de idade.


Cada vez mais, a construção das notícias pode ser enriquecida com a participação colaborativa das pessoas. O jornalista passa a ser o organizador dessas informações, dessa produção coletiva. Que pode estar espalhada em diversas ferramentas da web 2.0: Flickr, Youtube, Twitter etc. Ao mesmo tempo que filtra o que há de mais relevante, contextualiza o assunto e checa a veracidade das informações e depoimentos.


Atualmente, uma história pode ganhar ramificações, atualizações constantes, enfoques inusitados de fontes que estão vivenciando grandes acontecimentos, algo que enriquece o trabalho jornalístico e transforma a matéria em algo não linear.


Jornalismo beta


No texto Produto x processo jornalismo: O mito da perfeição versus cultura beta, o professor e consultor de comunicação Jeff Jarvis repisa um assunto já desgastado: nova mídia x modelos da informação. Um dos pontos principais é a divulgação de boatos, notícias não confirmadas. Segundo Jarvis, na internet, freqüentemente o material é publicado primeiro e editado posteriormente.


Para ele, essa criação não é perfeita, mas não significa que seja pautada pela especulação, que não obedeça a normas. É apenas um processo diferente. Há blogueiros, por exemplo, que pedem a ajuda de leitores para escrever seus textos. 


Trata-se de um processo de colaboração, transparência, no qual os leitores participam. Todavia, é necessário esclarecer isso, trazer advertências e correções. Uma boa dica é deixar claro o que se sabe no momento e o que pode ser confirmado depois.


O blog TMZ, especializado no mundo das celebridades, foi o primeiro a citar a morte de Michael Jackson. Todavia, já trazia, ao final do texto, a informação de que se tratava de uma notícia ainda em construção. 


Ademais, Jarvis defende que essa dicotomia entre nova e velha mídia é contraproducente, visto que impossibilita que uma aprenda com a outra. Concordo. Acho estranho, por exemplo, esse antagonismo. Muitas vezes, acompanhado de incoerência: há blogueiros que criticam ferozmente a mídia tradicional, mas se emocionam quando são citados nela. Jornalistas que afirmam que o meio online não é confiável, mas fazem busca no Google por dados, citam trechos da Wikipédia e blogs em seus textos, usam redes sociais (como Orkut e Google) para conseguir fontes para suas matérias etc.


Compartilhar, um dos preceitos da internet


Estabelecer conexões. é um dos alicerces da internet. O Yahoo! surgiu dessa forma. Seus criadores, David Filo e Jerry Yang, começaram a compartilhar informações que estavam pesquisando para suas teses de doutorado. Com o tempo, cada vez mais pessoas contribuíam.


Antes, quando o criador da World Wide Web, Tim Berners-Lee, divulgou seu projeto, escreveu a seguinte mensagem num fórum, no dia 6 de agosto de 1991: “estamos muito interessados em espalhar a web para outras áreas (…). Colaboradores são bem-vindos!”


Na internet, a informação não está mais represada. Você pode escolher entre ser um beco sem saída ou ponto de início para a experiência online. Até porque estabelecer conexões com outras informações ajuda a contextualizar o assunto, citando notícias antigas, onde encontrar arquivos multimídia… Mais do que definir um termo citado no seu texto, você pode optar por linkar para uma página – como a enciclopédia colaborativa Wikipédia – que traz informação atualizada sobre o assunto.


Ryan Sholin, diretor de inovações em notícias do site colaborativo Publish2, acredita que um site jornalístico não deve ser o final do diálogo, mas sim seu início. Para ele, devemos citar outras fontes porque devemos isso aos leitores, para dar a eles todas as informações que temos. Além disso, não sabemos tudo, mas podemos indicar onde encontrar informações sobre o que desconhecemos.






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