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Desafios dos novos tempos


Atualmente, o momento propicia a criação de novas formas de se divulgar informação. Como não há fórmulas, não há certo ou errado. O que, de certa forma, é libertador para a criatividade.


É importante que a indústria da informação invista no desenvolvimento de novos produtos, algo comum em outras empresas. Hoje, na maioria dos casos, os grandes projetos de comunicação online (como buscadores, sites de relacionamento, agregadores de resenhas etc.) não foram gestados por empresas de comunicação.


Uma opção que vem sendo testada com bons resultados são os newsgames. Eles têm obtido bons resultados: retém de 70% a 80% de informação


Não que a informação tenha de estar atrelada ao entretenimento. Apenas precisa estar mais adaptada a esse novo meio e buscar novas formas de se comunicar. Por isso, é necessário que a tecnologia tenha, cada vez mais, papel relevante nos projetos de comunicação online. As páginas tem de ter boa usabilidade, mas também serem amigáveis aos serviços de buscas, fáceis de serem encontradas.


Há sites de jornais que não atentam para regras de SEO (Search Engine Optimization – técnicas para melhorar o posicionamento de sites nos resultados de buscadores): usam muito a tecnologia flash (rica visualmente, mas não detectável pelos buscadores), utilizam páginas internas que são códigos que não trazem termos usados no título do texto; os títulos por sua vez, podem até ser criativos, mas são poucos elucidativos sobre o que trata o texto etc. 


Todavia, o mais importante não são as técnicas em si. Essas são transitórias, mutáveis com grande freqüência e diversas. Elas são ferramentas práticas; mais significativo é absorver o conceito, perceber que a tecnologia facilita a propagação da informação. 


Quando se fala em inovação, geralmente se pensa em grandes somas, mudanças amplas e radicais. Na verdade, em muitos casos, uma boa idéia não precisa de tanto aporte financeiro. Twitter, Google Maps dentre outros serviços online são gratuitos e permitem enriquecer a abordagem de um acontecimento.


Ademais, outro equívoco é pensar o novo meio com idéias antigas. Como buscar soluções baseadas no suporte físico da publicação, e não em plataformas distintas. A versão maior do Kindle (terceira geração do produto), o leitor de eBooks da Amazon, foi recebido, por muitos, como o “salvador dos jornais impressos”. Entretanto, pode ser um gadget que perdure apenas por alguns anos. Há vários motivos para vislumbrar esse cenário, como o surgimento de aplicativos que permitem que celulares possam ler arquivos digitais de livros (o iPhone, por exemplo, já possui vários softwares para isso).


O estrategista de marketing Steve Rubel fez, em dezembro de 2008, uma previsão ousada na coluna que publica na Advertising Age. Aposta que até janeiro de 2014 quase todos os tipos de suportes materiais vão estar em acentuado declínio ou completamente extintos nos EUA: jornais, revistas, livros, DVDs, softwares e jogos de videogame embalados.


Para defender sua tese, enumera algumas notícias recentes:


* Devido ao sucesso do leitor de livros digitais Amazon Kindle, a Random House, maior editora norte-americana, está disponibilizando 15.000 livros em formato digital;

* A Microsoft tornou possível que seu videogame, o XBox 360, receba jogos via download, não necessitando de um DVD para rodar. Além disso, lançou uma loja online para vender software que podem ser baixados;

* A Apple está vendendo um número recorde de jogos via download para o iPhone e o iPod Touch. Isso atrai os editores de games, porque a falta de meios físicos aumenta os lucros;

* A Netflix, empresa de aluguel de DVD online, está disponibilizando parte do seu catálogo disponível na internet.


Segundo Rubel, estamos nos transformando numa sociedade que consome mídia totalmente em formato digital. Existem três fatores para isso:


* Crescente consciência verde – as pessoas querem viver respeitando mais o meio-ambiente;

* Venda de smartphones: Telefones com diversos recursos -entre eles, multimídia- cada mais rápidos, baratos e fáceis de se utilizar.

* Dinâmica demográfica – em 2010,  os millennials ― também chamados de geração Y; jovens nascidos entre 1977-1995 que utilizam bastante a tecnologia, gadgets etc. -  serão a maioria.


No mundo, ele acredita que a tendência demorará mais. Entretanto, nos EUA, o ritmo cresceu muito nos últimos meses. 


Outro tema que é debatido sobre um ponto de vista anacrônico gira em torno da cobrança pelo conteúdo. De acordo com o especialista em comunicação Steve Buttry as empresas jornalísticas não são a única fonte de informação online. "Se tentarmos forçar que o Google ou os consumidores paguem pelo conteúdo online, veremos surgirem diversas fontes alternativas de informação", explica. Jornalistas experientes - muitos deles profissionais que foram demitidos - poderão fazer um trabalho de triagem do conteúdo mais relevante.


Mesmo a terceirização (Outsourcing) chegou à indústria das notícias. Nos EUA, o site Pasadena Now demitiu em dezembro de 2008 cinco repórteres norte-americanos. Para preencher essas vagas, optou por procurar novos profissionais através da página de anúncios Craiglist. Contratou jornalistas indianos, que recebem salários bem mais baixos. 


Na internet, a informação encontra diversos caminhos, muitos deles novos. Um exemplo disso é o que ocorre com o noticiário regional. Surge, nesse cenário, os sites de notícias hiperlocais. EveryBlock (que tem uma parceria com o New York Times), Outside.in, Placeblogger e Patch são alguns exemplos. Funcionam como agregadores de conteúdo: informações publicadas em blogs locais e outras páginas de notícia são complementados com informações do governo, boletins criminais e conteúdo enviado pelo público. 


Dessa forma, o leitor pode acompanhar as notícias mais relevantes para o seu bairro, seu quarteirão. Informações como lista de eventos, campanhas voluntárias, problemas no trânsito, oportunidades de emprego e negócios são publicadas levando-se em conta sua localização geográfica. 


Muitas dessas iniciativas não produzem conteúdo original. Mas buscam criar produtos diferenciados. Como a Outside.in, que possui um aplicativo do iPhone que permite identificar informações num raio de 300 metros onde o leitor estiver.


Já o site Patch utiliza jornalistas profissionais. Munidos de notebooks com conexão à internet sem fio, esses repórteres coletam informações na comunidade. Participam, por exemplo, de reuniões em escolas. 


[...] a mídia de hoje está de fato mais próxima de um ecossistema do mundo real, um sistema de fluxos e alimentação – completamente diferente de uma linha de comando. Essa complexidade é o que torna tudo tão interessante, está claro, mas também é o que torna tão difícil prever como será a mídia em cinco ou dez anos.”


Steven Johnson, um dos mais influentes pensadores sobre novas mídias, no texto Imprensa “mata-cerrada” e o futuro das notícias. A tradução do artigo foi feita de forma colaborativa, com várias pessoas traduzindo partes (”adote um parágrafo”).


Para ele, ainda estamos num início de um novo processo de apuração. Por isso, ainda é cedo para dizer enfaticamente que os blogs não poderão ser utilizados para jornalismo investigativo, por exemplo. 


Ademais, há cada vez mais acadêmicos envolvendo-se no ciclo noticioso, com blogs atualizados constantemente. Isso permite uma maior pluralidade de pontos de vista, enriquecendo o debate. Além disso, torna possível termos acesso a opiniões de especialistas sobre os mais diversos temas. 


Para os que julgam que blogueiros apenas copiam notícias da mídia tradicional (”parasitas”), Johnson observa que conteúdo próprio, inclusive “furos”, são produzidos na blogosfera. Além da diversidade de informações e opiniões, outro aspecto importante que ele cita é o aumento de dados multimídia que ajudam a complementar as notícias. O discurso da Filadélfia de Barack Obama, um dos momentos-chave da campanha à presidência dos EUA, foi visto por oito milhões de pessoas só no YouTube. Segundo Johnson, dificilmente alguma emissora o teria exibido na íntegra. Teria sido reduzido a um resumo de um minuto.


O futuro não virá. Não é algo que, a partir de uma data, será o método vigente. O processo de mudança já está presente em nossas vidas. E é apenas o começo. Ferramentas como o Google Wave podem desenvolver novas formas colaborativas de criar notícias.


Ponto de ruptura

O debate sobre a indústria da informação não deve ser feito apenas sob o ponto de vista dos meios de comunicação, ser auto-referente. É necessário ampliar a visão, do contrário pode-se perder oportunidades significativas. A Apple, por exemplo, modificou a venda de música com o iPod e a loja virtual iTunes, mesmo sem ter experiência no setor. A loja virtual Amazon quer fazer o mesmo com o mundo editorial. Lançou o Kindle, seu leitor de livros em formato digital.

No livro “Criatividade e Grupos Criativos”, o sociólogo Domenico de Masi defende que a criatividade talvez não seja a menor distância entre dois pontos, mas é a mais produtiva. Esse desvio torna possível, inclusive, transformar e recriar o que foi desenvolvido para um fim, mas que encontra outra utilização prática.

As mudanças trazidas pela internet são amplas. Nem sempre traz algo novo, mas potencializa tendências e demandas reprimidas do mundo “off line”, criando caminhos e soluções inesperadas.

O primeiro setor a ser afetado significativamente pela internet foi o entretenimento, com mais evidência a indústria fonográfica. Agora é a vez da comunicação. Provavelmente, não serão as únicas. Na verdade, a grande rede simboliza diversas mudanças tecnológicas atuais, que devem resultar em alterações significativas na sociedade.

Muitas vezes, fala-se que o passado ensina, com ele aprendemos lições importantes. Provavelmente as alterações resultantes da sociedade conectada sejam tão grandes que mirar o passado não seja o parâmetro ideal do que está acontecendo. "Se eu tivesse perguntado a um consumidor do que ele precisava ele me teria pedido um cavalo mais veloz" afirmou Henry Ford, empresário que revolucionou a indústria automobilística.

Podemos estar em outro momento de ruptura. Essa transição faz com que muitos fiquem ansiosos, temerosos pelo que pode vir ou mesmo tornem-se críticos mordazes das novidades propostas. O repórter norte-americano Dan Rather chegou a definir os blogueiros como ‘jornalistas de pijamas’. Hoje, grande parte das empresas de comunicação mantém blogs.

O clima é favorável à criação, ao lançamento de novas propostas. Quem trabalha com comunicação deve perceber justamente isso: sua área é a informação, não deve estar atrelada a um suporte físico, um estilo específico de atuação.


Acostume-se com a mudança: acredito que será um processo eterno de modificação. Sempre foi, aliás. Apenas será mais rápido e intenso. E sem fórmulas miraculosas.





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