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A construção coletiva das notícias


O julgamento das notícias está mudando? Sim! Pela primeira vez, podemos nos conectar diretamente com cidadãos que podem ser fontes confiáveis, além das cabeças falantes e rostos bonitos que servem como âncoras de notícias”. Rick Sanchez, apresentador da CNN, na 140 Characters Conference (#140conf).


Jornalismo cidadão é descrito pelo professor de jornalismo da faculdade de Nova York Jay Rosen como “quando as pessoas, antigamente conhecidas como platéia, empregam as ferramentas da imprensa para informar outras pessoas.”

É uma maneira pela qual o leitor pode participar ativamente do processo jornalístico, adicionando às histórias fotografias ou vídeos, muitas vezes em relatos em primeira mão.


A participação do chamado jornalismo cidadão cresce no mundo, desde pequenas adições ao noticiário local até participação em larga escala. 


Blogs, fóruns, mensagens curtas no Twitter, redes de relacionamento online (Orkut, Facebook, MySpace), serviços de hospedagem de fotos e vídeos (Flickr, Fotolog, Youtube)... Essa produção passa a ser utilizada como fonte de informação. Em coberturas recentes, os meios de comunicação utilizaram bastante ferramentas da web 2.0.


No final de 2008, o blog idéia 2.0 trouxe um ranking com os momentos mais importantes das notícias colaborativas em 2008. Compilada pela NowPublic, página que escreve notícias de forma participativa, a seleção destaca o microblog Twitter como uma ferramenta de auxílio aos jornalistas na apuração de uma matéria. Segundo o NowPublic, no Twitter é possível encontrar depoimentos e dados mais recentes sobre os acontecimentos.


Os ataques na Índia ficaram no topo do ranking dos “Momentos mais importantes em notícias colaborativas”. Em seguida, aparecem o compartilhamento de dados emergenciais sobre desastres naturais (como o terremoto na província de Sichuan, na China, e a tragédia causada por um ciclone em Mianmar). A lista completa você confere no site da NowPublic.


Em sua tradicional seleção da personalidade do ano, a revista norte-americana Time escolheu o presidente norte-americano Barack Obama como o vencedor de 2008. Para ilustrar a decisão, a publicação fez uma seleção de fotos produzidas sobre Obama que estão no Flickr. A revista examinou mais de 100 mil fotos.


Segundo a Time, Obama costumava dizer que sua candidatura não era sobre ele, mas sim sobre “você”, e agora, juntamente com o site de armazenamento de fotos Flickr, a revista ajuda a dar a “você” uma voz.


Em 2006, a publicacão escolheu “você” -devido à produção e distribuição de conteúdo online- como personalidade do ano.


Não é algo novo. Há tempos, por exemplo, se utiliza gravações amadoras de fatos importantes, quando não se tem o registro feito por profissionais. A diferença é que agora também se busca a qualificação dessas pessoas. 


Quando a oportunidade surgir, elas poderiam estar melhor preparadas para esse “trabalho”. O prestigiado jornal inglês The Guardian mantém uma página que ensina técnicas de filmagem. O Youtube criou um canal (YouTube Reporters’ Center) que traz vídeos em que jornalistas conhecidos ensinam como criar bons vídeos


O jornal norte-americano Oakland Press foi além. Em dezembro de 2008, criou um instituto focado em jornalismo cidadão. Com ele, a publicação busca auxiliar seus leitores a “contar melhor suas histórias, de forma mais rápida e completa”, segundo o editor executivo Glenn Gilbert.


O instituto oferece instruções para redação de textos jornalísticos, videojornalismo e fotografia. As informações estão disponíveis para todas as pessoas, desde estudantes do ensino médio até aposentados. Uma vez concluído o curso, os participantes estão aptos a trabalhar como freelancers.


Diante da atual “era digital”, escreve Gilbert, fotos e vídeos podem vir de qualquer um com um celular. O Oakland Press está tentando utilizar essa contribuição em seu site (www.theoaklandpress.com), acrescentando o trabalho dos não-profissionais na cobertura esportiva e no noticiário local. 


Com o barateamento dos custos de publicação de informação graças à internet, bem como dos equipamentos de produção (celulares multimídia, câmeras digitais etc.) pautas que estão adormecidas podem ser trabalhadas. Isso porque telejornais e jornais impressos tem limitações. Não apenas de equipe para cobrir tantos assuntos, como também do tempo de duração do programa e do tamanho do espaço para publicação. 


Surge, então, o hyper journalism (ou hyper-local media). Trata-se da divulgação de assuntos sobre uma determinada comunidade. Um tema pode não ser de grande apelo para toda a cidade, mas ser interessante para um bairro, por exemplo. 


Por outro lado, Eduardo Arcos, produtor espanhol de conteúdo online, escreveu em seu blog, o ALT1040, que o jornalismo cidadão não existe:


"[…] Creio que tão pouco estamos interessados em que nos chamem de jornalistas (porque não somos), o que estamos interessados é que se encontrarem uma notícia por meio de, por exemplo, Twitter, blogs e YouTube, sejam suficientemente sensatos e aprendam a dar crédito a pessoa e não à ferramenta de publicação. (diferente de algo como ‘crédito: YouTube’ ou ‘crédito: internet’)
Em poucas palavras, se trata de construir um ambiente de respeito mútuo. Nem mais nem menos”.


Todavia, mais do que usar esporadicamente esse material, atualmente projetos de jornalismo colaborativo capitaneados por grandes empresas de comunicação são criados. Muitos ficaram pelo caminho, como o Your Story, da BBC, encerrado em 2009 devido à pouca aceitação. 


Por outro lado, em 2007, o Newsvine,  foi comprado pela MSNBC.


Para o jornalista Tiago Doria, "os projetos mais promissores são aqueles que seguem o modelo híbrido – conteúdo gerado por usuário junto a conteúdo gerado por profissionais".


Essa parceria contornaria um dos problemas desse tipo de projeto: a checagem da veracidade dos fatos. No ano passado, foi através do site de jornalismo cidadão iReport, da CNN, um dos mais prestigiados nesse segmento, que a falsa morte de Steve Jobs ganhou o mundo. 


De toda forma, parece-me mais um problema relacionado ao início desse tipo de projeto colaborativo. Até porque o erro não ocorre somente no trabalho desenvolvido pelo cidadão-repórter. Ademais, a própria comunidade também pode monitorar o que é publicado. Uma espécie de Ombusman coletivo. 


Em países fechados, o problema é ainda maior. Torna-se difícil, em muitos casos, checar informações. Ao mesmo que oferecem um contraponto ao discurso oficial, dados tendenciosos ou falsos podem ser divulgados como fontes seguras. Até porque a manipulação da informação ocorre nas mais diferentes tendências políticas. 


Huffington Post indica suas normas de publicação para contribuições do leitor


O Huffington Post, um dos coletivos de blogs mais populares dos EUA, divulgou as normas que servem de orientação para a contribuição dos leitores (jornalismo cidadão). Todos os textos devem obedecer essas regras editoriais. Pode-se ajudar a agilizar o processo de publicação seguindo as instruções básicas abaixo:


Verifique a ortografia e os erros gramaticais. Iremos verificar novamente, mas uma rápida busca por palavras esquecidas pode fazer grande diferença. Certifique-se de obter a grafia correta dos nomes citados.


Faça pesquisas e inclua links para explicar o assunto. Se você está mencionando uma citação, estatística ou evento específico, você deve incluir um link que apóia a sua afirmação. Se você não tiver certeza, é melhor ser cauteloso. Mais ligações reforçam o texto e ajudam os leitores a acompanhar seus caminhos. Quando incluir um link, não nos envie um hiperlink no texto. Em vez disso, coloque entre parênteses em torno da expressão que você deseja inserir o link no artigo e, em seguida, cole o endereço diretamente na expressão entre colchetes. Por exemplo, se você quiser linkar para uma página do Huffington Post no seu texto, seria assim: “Você pode encontrar mais informações em [O Huffington Post]“. Http://www.huffingtonpost.com/


Se você cita entrevistados, certifique-se de como pode confirmar isso. Em certa medida, será a sua palavra que corrobora a citação. No mínimo, porém, terá de ser capaz de apresentar o nome da pessoa entrevistada e da hora e local que a conversa ocorreu. Ser capaz de produzir uma transcrição da gravação ou a citação é o mais indicado. Antes de você citar alguém, deve-se checar se a pessoa está disposta a falar com você registrando o depoimento e se quer ser citado na imprensa. Você também deve ser claro sobre seus vínculos com as fontes que usa. Você é um amigo? Um investidor? Alguém que conhece do trabalho? É melhor indicar qualquer relacionamento relevante em razão do texto. Aspas de anônimos podem ser utilizadas, mas você deve dispor de informações para verificá-las.


Se for um texto crítico, com citação de uma pessoa, é importante checar com a empresa ou a pessoa para comentar o assunto. Em geral, se você está retratando alguém sob um ponto de vista negativo e o artigo não é claramente o seu próprio parecer, você precisará entrar em contato com essa pessoa para uma resposta. Pode ser um comentário enviado por e-mail, ligar para a pessoa ou para o escritório do departamento de comunicação da empresa. É preciso dar tempo suficiente para que eles respondam (normalmente 24 horas). Quando retornarem, não se esqueça de pegar o nome e o cargo da pessoa com quem falou. Se você tiver problemas para obter um comentário, nós seremos capazes de ajudar a entrar em contato com pessoas difíceis de alcançar e decidir se um comentário é necessário. Como regra geral, no entanto, é melhor prevenir do que remediar.


Muitas vezes haverá alterações editoriais no texto. Não para mudar o sentido ou seu tom, mas sim para fazer pequenas mudanças que tenham a ver com o alinhamento da história com o resto da página. Mudamos manchetes por muitas razões: espaço, design, repetição, SEO (Search Engine Optimization) são apenas alguns dos fatores considerados.


Os textos devem ter até 1000 palavras. No geral, o melhor texto tem cerca de 600 palavras. Muitas vezes, uma matéria mais curta tem mais impacto. Em alguns casos, um artigo deve ser mais extenso, mas deve-se definir com antecedência quando isso ocorrerá.


Conteúdo nem sempre é o mais importante


Conteúdo nem sempre é quem manda”, disse um dos diretores da Current TV, Richard Cole, numa conferência que abordou a idéia de “desenvolver comunidades em torno de conteúdos”.


O conteúdo irá atrair as pessoas ao seu site, mas as conexões que eles fazem nessa página é o que será decisivo para que retornem regularmente”, declarou.


A Current TV foi fundada em 2004 por Al Gore e exibe conteúdo colaborativo. Alguns vídeos são exibidos no site e outros no canal de TV. Para incentivar a participação dos usuários, usa reconhecimento e retribuição em formatos simples.


Segundo Cole, destacar quem cria conteúdo para o serviço em rankings e, com isso, gerar mais audiência para o site ou perfil em redes sociais dessas pessoas, é mais interessante que premiar com camisas, por exemplo.


E, mesmo aqueles que não produzem conteúdo mas que são visitantes regulares, também são vistos como usuários entusiastas. Atualmente, a participação do site estaria dividida de acordo com a teoria 90-9-1: Audiência (90%), contribuintes esporádicos (9%) e criadores de conteúdo (1%). No Brasil, a experiência da Current TV serviu de inspiração para a criação da Fiz TV.





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